Tal como "prometi" quando
aprendi a fazer compostagem, já somos mais cá em casa. Além de nós e das nossas três gatas, temos agora uma família de minhocas ao nosso cuidado!
Quando participei na oficina de compostagem percebi que não a poderia fazer no nosso apartamento (o compostor tem que ficar pousado na terra) e como me ficaram a incomodar os 40% (nós, provavelmente mais) de resíduos orgânicos no lixo que cada um de nós produz por dia, mal surgiu a oportunidade fomos participar numa oficina sobre vermicompostagem, organizada pelo núcleo de Braga da Quercus.
A finalidade da oficina era ensinar a técnica da vermicompostagem, fornecer as minhocas aos participantes, mas também reaproveitar caixas de esferovite como vermicompostores. Como caixas de esferovite são incompatíveis com gatas, nós optamos por fazer o nosso compostor com caixas opacas de plástico. Sim eu sei que o plástico não é muito ecológico, e que também se podem fazer em madeira, mas não deve ser por acaso que todos os vermicompostores que tenho visto são em plástico!
O vermicompostorHá imensos sites e blogs que nos ensinam a construir a moradia para as nossas minhocas. Nós, baseados também no que aprendemos na oficina, inspiramo-nos
neste esquema de
minhocasa (ninguém como os brasileiros para simplificar os nomes das coisas) e
neste passo-a-passo, e edificamos, para já, o primeiro andar do nosso vermicompostor. Se correr bem, acrescentaremos os dois andares que completam o palácio (quem preferir pode ficar apenas pelo rés-do-chão, quem for mais ambicioso pode fazer ainda mais andares).

Assim comprámos uma caixa
Slugis (do
Ikea) com 54cm x 35cm e 16cm de altura. Porquê? Porque não acho nada bonitas as caixas semelhantes às que aparecem no esquema...
Se não for grande o suficiente, posso depois comprar uma mais alta, da mesma linha e esta primeira fica como tabuleiro de repouso de composto já pronto ou para recolher o excesso de líquido (chorume). Mas ATENÇÃO, não vale a pena comprar caixas muito altas, as minhocas só sobem até uns 20/25 cm de altura! Se for preciso mais espaço, joguem com a largura ou o comprimento.
Depois fazem-se buracos na tampa e na laterais da caixa (para arejamento) e no fundo (para escoamento de eventual excesso de humidade). Como a nossa caixa vai ficar na varanda não colocámos nada por baixo, para já, mas se a colocarem numa divisão interior convém pôr um tabuleiro por baixo para recolher o chorume. NÃO faça como eu (esperta...), que, para não ter ir buscar o berbequim (...) comecei a fazer os buracos como vi a formadora fazer nas caixas de esferovite (usando um ferrinho aquecido numa vela...): derreter plástico liberta vapores TÓXICOS!!! Os buracos devem ser pequenos para as minhocas não sairem da caixa. E acreditem que elas saem por "buraquinhos bem pequenininhos": já andei a salvar minhocas pelo chão da varanda (nalguns casos cheguei tarde demais...). Muitos não são demais - aprendi eu com a prática - porque a caixa deve ser bem arejada. Li algures que podemos colocar no fundo da caixa (e forrar as paredes também) com rede plástica bem apertada, de maneira a sairem líquidos mas não as minhocas. Parece-me uma óptima ideia, a experimentar na altura da remodelação da moradia... E pronto, a casinha está pronta!
As habitantes
As nossas minhocas dão pelo bonito nome de eisenia fetida, mas são mais conhecidas como minhocas vermelhas, e parece que são campeãs a processar uma grande variedade de materiais, daí serem as mais usadas na vermicompostagem.
Gostam de trabalhar entre os 15º e os 25º. Temperaturas mais baixas ou mais altas diminuem a sua produtividade e podem mesmo matá-las. Por isso, às vezes - dependendo da temperatura do sítio onde estão - pode ser necessário retirar a tampa, para refrescar (o calor é a situação mais comum por cá). Quando estão com calor saem da mistura e sobem para as paredes laterais e tampa. Se o PH não for do seu agrado (entre 5 a 9) também tentam fugir, daí não ser aconselhável colocar critinos na caixa. Gostam de humidade, lugares bem arejados e fogem da luz mais rápido do que um vampiro... Parecem umas bichinhas complicadas mas não são, a sério!
Iniciar o processo
- Fazemos primeiro a cama das bonecas - desculpem! - minhocas: cortamos tiras de jornal com cerca de 2cm de largura, evitando as folhas coloridas por causa dos químicos pesados. Se pegarmos em várias folhas de jornal e as rasgarmos no sentido do comprimento (rodando-as 180º em relação à posição normal de leitura...) a tarefa é rápida e simples. Amarrotamos várias tiras numa bola, humedecêmo-las com um borrifador - ou mergulhando-as rapidamente num recipiente com água (não devem ficar excessivamente molhadas) e forramos o fundo da caixa com as tiras humedecidas e de novo separadas;

- adicionamos um punhado de terra, para acrescentar microorganismos;
- juntamos as minhocas. Segundo o que aprendi na formação, por cada quilo de resíduos adicionado por semana, são necessários 300g de minhocas. Como é óbvio, não dá para andar a pesar as minhocas, por isso vamos estando atentos para ver se as minhocas vão dando "vazão" aos resíduos, ou se temos que não colocar tantos restos e esperar que a família cresça;

- colocamos os primeiros restos de comida (li algures que devemos aguardar 2 semanas antes de alimentar as minhocas, para elas se habituarem à casa nova. Eu não o fiz e deram-se bem);
- cobrimos tudo com mais tiras de jornal humedecidas (cama).
Manutenção- Devemos ir revolvendo a mistura - com cuidado para não trucidar nenhuma minhoca - com um ancinho pequeno. Não precisa de ser todos os dias, o ideal é ir olhando e mexer quando acharmos necessário misturar restos menos degradados que estejam por cima e a mistela por baixo. Afastar a cama, revolver e no fim voltar a cobrir bem a mistura;
- se a mistura estiver seca, borrifar com água ou juntar cama humedecida e, se necessário, colocar a caixa num sítio mais húmido. Se estiver molhada, evitar juntar alimentos muito ricos em água, adicionar cama seca (as tiras de jornal sem as humedecer, folhas secas, palha, ...) e se for o caso, mudar a caixa para um local menos húmido;
- colocar alimento (parece que as minhocas sobrevivem 3 meses sem comer...), afastando a cama e voltando a tapar tudo no fim;
- e sempre que a cama desaparecer (por cima e/ou por baixo), fazer uma nova! É esta cama que previne o aparecimento de mosquitos. Se mesmo com a cama aparecerem mosquitos pode usar-se folhas de couve galega a cobrir a mistura, ou colocar uma pequena taça com vinagre junto à caixa;
- o que nos leva ao que NÃO devemos colocar no vermicompostor: citrinos (torna o composto muito ácido), restos de alimentos cozinhados, de origem animal e gorduras (atraem moscas e têm um cheiro desagradável), sementes (adoram o ambiente cheio de nutrientes e germinam - brancas porque não têm luz. Ao germinar começam a absorver nutrientes do vermicomposto).
Quando estiver pronto
Normalmente, ao fim de 2 meses já há composto pronto. Nota-se bem porque parece... terra! Como o retirar?
- Se já tiverem o arranha-céus com as três caixas, trocam a caixa do meio - onde estavam a fazer o 1º composto e trocam-na com a de cima (que passa a ser a do meio), e nesta voltam a fazer o "Iniciar o processo". Provavalmente as minhocas migram da caixa de cima para a do meio (através dos buracos), porque já não lhes damos alimento na outra... Façam-no ou não, ao fim de duas semanas, à luz do dia, retiramos o conteúdo da caixa de cima e espalhamo-lo numa superfície lisa (pode ser a tampa), deixando um monte num canto. Como não gostam da luz as minhocas vão fugir para o monte. Vamos retirando composto da zona onde está espalhado (já sem minhocas) e vamos espalhando mais, reduzindo o monte. Repetimos a operação até o monte ser (quase) só minhocas, que colocamos na caixa com a nova mistura. Se ao fazermos esta operação encontrarmos uma espécie de bagos de arroz, devolvemo-las à caixa, porque são ovos de minhocas! O composto pronto pode (e deve) ficar a repousar na caixa de cima porque as minhocas já não voltam para lá (estão todas contentes a comer na casa nova). Depois de alguns dias pode usar-se o composto para fertilizar.
- Se só houver uma caixa (como no nosso caso, para já), fazemos o mesmo processo, mas puxando todo o composto para metade da caixa e fazendo o "iniciar o processo" na outra metade. De resto é tudo igual!
Fertilizante: chorume (ou xorume) - chá de vermicomposto
O tal líquido que sai por debaixo da caixa é o chorume (ou xorume), o "resultado do processo de putrefação (apodrecimento) de matérias orgânicas" e, neste caso, altamente nutritivo. Se o quiserem aproveitar devem colocar o tal tabuleiro ou caixa por baixo (sem buracos, claro), mesmo que fique numa varanda, para o recolher. A nossa mistura não largou quase líquido nenhum, por isso ainda não testei a eficiência do chorume. Não pode ser usado puro porque é muito forte, mas sim diluído na proporção de uma parte de chorume para dez de água. Usa-se como fertilizante.
Também podemos fazer chá de vermicomposto. Retira-se um bocado da mistura (sem minhocas...), coloca-se num pano fino, juntam-se as pontas e ata-se (a isto chama-se uma "boneca"). Mergulha-se num regador - ou balde - com água e deixa-se de molho durante nove dias. Após este tempo usa-se a água para regar as plantas. Tal como o chorume, é um fertilizante. O vermicomposto que fica no pano devolve-se à caixa.
E assim começou uma novo ritual nas nossas vidas!
Claro que quem não for adepto das manualidades pode
comprar um
vermicompostor. Mas não é a mesma coisa...