30 de outubro de 2010

181 - Encontrar um modo ecológico de afiar as facas

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Andava eu nas minhas pesquisas para encontrar a maneira mais sustentável para afiar as facas da cozinha...

Em casa dos meus pais usava-se um fuzil, e o responsável pela tarefa de afiar as facas era o meu pai, primeiro, e depois - por herança - o meu irmão mais velho. Deve ser uma daquelas tarefas que remete para tempos e tarefas longínquas, pois normalmente cabe ao homem da família este ritual... Claro que, nos dias seguintes ao afiar das facas, a minha mãe cortava-se muito mais.

Como dizia, andava eu sem saber se comprava um fuzil (ou chaira): de metal ou cerâmica; uma pedra: de "pedra" ou de cerâmica; ou um twinsharp select: muito mais moderno, mas também muito mais simples - e aliciante - para quem não percebe nada desta verdadeira arte.

Claro que já tinha colocado de lado todos os afiadores eléctricos e também aqueles pequenos de plástico com uma ranhura onde se insere a faca (estes últimos também porque o meu irmão caçula, que está na área de "catering e hotelaria", quase me bateu...).

E assim, algures durante a minha indecisão, numa bela e calma manhã de domingo, entra, pela janela aberta da nossa sala - e coada pela folhagem das árvores do bairro - a melodia característica de... um amolador de facas!
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E eu, iluminada do mais puro espírito "365 coisas que posso fazer...", num minuto fui à varanda acenar ao senhor amolador, à cozinha agarrar nas nossas 5 facas (já bem rombas de tanta indecisão) e entregá-las ao homem acabado de chegar, na sua bicicleta centenária, à porta do nosso prédio. Obedientemente voltei para casa: "quando estiver pronto toco à campainha", toda contente comigo mesma.
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Há lá coisa mais sustentável? Não preciso de comprar nenhum novo objecto e ainda estou a contribuir para que não desapareça uma profissão, já quase extinta e que, provavelmente, só subsiste em bairros e zonas como a nossa, onde os moradores são quase todos octogenários.

Pois...

Mas quando o senhor amolador tocou à campainha e me disse que o preço de afiar 5 facas "são 15€, menina, 3€ cada uma", o meu entusiasmo esfumou-se num segundo...

E não, não precisam de me dizer nada. Eu sei. Devia ter dado só uma faca, para experimentar. Ou devia ter perguntado antes. Ou ambas as coisas...

Tenho muita pena, a sério. As facas ficaram bem afiadas (durante quanto tempo? Verei). Acho a melodia da gaita de cinco tubos agradável e representativa de uma urbanidade, de uma época e de uma série de personagens características (também o moço de fretes, o engraxador, a peixeira, ...) que gostava que continuassem a formar a minha cidade (nostalgia?...). Até posso aceitar que o valor levado pelo amolador seja justo, mas para mim - e para o uso que dou às facas - é elevado.
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O "faça você mesmo" também é sustentável e por menos de 10€ compramos uma pedra de amolar ou um fuzil e aprendemos a utilizá-lo. Ou, ainda mais ecológico, usamos o fundo das canecas de cerâmica, como descobri depois...

Em última instância, se ambos formos uma nulidade a afiar facas, compramos uma daquelas japonesas - que há uns anos dava na televisão - que nunca precisam de ser afiadas... Está bem, esta última não é uma opção ecológica... É um desabafo. Estou errada? Estou a ser mais uma a levar à extinção o senhor amolador?

E o meu vizinho pagou 2 € para arranjar a vareta do guarda-chuva...
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11 comentários:

  1. Podes afiar a faca com outra faca. É assim que o meu companheiro afia as facas.
    Quanto a seres mais uma... a meu ver, sim. (perdoa-me)Porque não compras facas a 3€ e as dos japoneses que falaste anteriormente, são bem caras (se tens um irmão em hotelarias, pergunta-lhe ;) ). A minha pergunta a ti agora é: vais voltar a afiar as facas quando? 15€ em 15 semanas consegues juntar se puseres num mealheiro 1€/semana (que dá menos de 0,20€/dia). É tudo uma questão de gestão do dinheiro. E outra coisa que ultimamentes me tenho apercebido é: com esta loucura da produção intensiva, da vida intensiva, da industria, dos chineses etc, o valor, o custo do trabalho está a ser muito desvalorizado. Deixo uma pergunta no ar: qual é o valor do teu trabalho? ;) Isso também é sustentabilidade (a meu ver, claro). Uma pergunta bem pertinente, que deixaste aqui ;)

    Filipa

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  2. Ainda me lembro do barulho que o senhor fazia quando chegava... há tantos anos atrás! Que saudades...

    Nem sabia que havia eléctricos. Eu uso a pedra!

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  3. Ema, cá por casa sempre usámos uma pedra (natural) de amolar recolhida pela minha avó que sempre usou as usou. Gostaria de te poder dizer que tipo de pedra e onde ela as apanhava! Vou investigar e depois digo-te.

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  4. Voltei :-) A pedra de amolar é uma pedra de grés.

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  5. Parabens pelo belo trabalho escrito!
    (numa palavra: "Maravilhoso")

    Felizmente para algumas pessoas, o preço que foi aplicado por afiar cada faca, foi exagerado.
    Eu digo "felizmente", porque estou em situação semelhante à do amolador, pelo que sei, que, por vezes, cobro por meus trabalhos, uma quantia exagerada, e posso afirmar que necessito de fazer uma ginastica muito grande para não passar fome!
    Simplificando, em muitos mêses do ano tenho um rendimento inferior ao ordenado minimo. Não tendo obviamente férias, subsidio de férias, etc., e não podendo pedir qualquer emprestimo ao banco ou sequer ficar doente...

    Sua atitude foi louvavel, pois contribuio para que o dia daquele homem, tenha valido a pena.
    Pena é que isso não aconteça com mais frequencia e a mais pessoas com suas facas por afiar.
    Se isso acontecesse, talvez o preço podesse passar para menos de um terço (o que já seria aceitavel), e o sentimento de se ser util para a sociedade (ao invéz de ladrão), para esse homem, seria fortemente elevado!

    Vivemos em sociedade, ora cada um de nós, independentemente de sua profissão, deveria ter um palel fundamental em sociedade. Se cada um tiver uma função, por mais pequena que seja ou que pareça desnecessaria, ela contribui para o enriquecimento da sociedade, logo é digna como as outras.
    Com isto, quero transmitir que a ideia de, "Faça voce mesmo", poderá não estar em sintonia com a sociedade, e que com o decorrer dos tempos vamos chegar à conclusão de que, cada ferramenta quere-se nas mão de seu profissional. Eu contra mim falo, que, modesto à parte, sou um abilidoso perfecionista, querendo fazer tudo sozinho, acabando por não ter tempo para nada...

    Cumpr.
    Jorge Rocha

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  6. afia-se as facas com outra faca, pega-se o lado contrario da faca e passa de cada lado do fio da outra , varias vezes, vera que fica bem afiada, eu faço sempre assim, esse conhecimento ja vem de minha mae!

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  7. Evita lavar as facas com água quente. Desse modo mantêm-se afiadas por mais tempo.

    Abraços e parabéns pelo trabalho

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  8. Assim é, ambos foram formidáveis. Contribuíram de modo substancial. Estava a procurar na internet sobre amoladores de faca e encontrei uma bela fotografia, a sua estória, o argumento sobre as condições do exercício da sua profissão agonizante e as contribuições para amolar e conservar afiadas os cortes das lâminas.

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  9. Adorei o texto !!!
    Parabéns !
    Teresa Ferreira

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